
Milton Santos
Meu post de hoje vai ser uma transcrição de uma pequena parte de uma entrevista realizada com o geógrafo baiano Milton Santos. Um grande ícone dentro da ciência geográfica, intelectual de renome internacional, bastante influente com seu pensamento critico sobre a sociedade atual. Realizou diversas pesquisas dentro da Geografia, da prática à teoria e vice-versa e um dos principais estudiosos sobre as consequências que a globalização, da forma como ela é produzida, traz ao ser humano. Não fez estudos de caso sobre a Natureza, mas a coloca num papel importante como centro de um paradigma de pensamento atual, como outros autores.
Quem quiser ganhar umas horas de sua vida, pode assistir ao documentário realizado pelo cineasta Sìlvio Tendler, Encontro com o pensamento de Milton Santos: o mundo global visto do lado de cá.
José Corrêa Leite – Professor, quero levantar uma outra contradição possível. Como se dá a relação do processo de globalização com os limites naturais? A ecologia se desenvolveu nas últimas décadas como uma crítica civilizatória que aponta cada vez mais que há limites naturais…
Milton Santos – De certo modo acabou a natureza. Bem, dizer que a natureza acabou é uma forma de provocar uma discussão mais acesa. Na realidade, a natureza, hoje, é um valor, ele não é natural no processo histórico. Ela pode ser natural na sua existência isolada, mas, no processo histórico, ela é social. Quer dizer, eu a valorizo em função de uma história. Isso já ocorria antes, mas hoje é muito mais evidente. O valor da natureza está relacionado com a escala de valores estabelecida pela sociedade para aqueles bens que antes eram chamados naturais. Hoje, quando a economia e a mais-valia se globalizam, a natureza globalizada pelo conhecimento e pelo uso é tão social como o trabalho, o capital, a política…
Por outro lado, eu tenho muito receio de uma superfetação do fator natural. Por duas razões. Primeiro, porque pode encobrir a vontade de produzir uma ideologia que nos afaste da discussão central, que é a da sociedade. Nesse caso, uma certa ecologia é um dado ideológico na produção da globalização perversa.
Uma enorme parcela da atividade intelectual, hoje, é comandada a partir de centros de poder. Por meio de seminários internacionais, prêmios oferecidos, viagens, publicações, tudo aquilo de que nós acadêmicos gostamos, as temáticas acabam sendo politicamente estabelecidas e forma-se a agenda do pensamento único, ainda que com pequenas variantes, como a necessidade de ter sempre um sujeito contra, para legitimar os 99% que estão a favor. Isto também faz parte do processo acadêmico. Veja-se o números de ONG’s que se criam e que são financiadas para mobilizar a boa vontade e o talento dos jovens, todos voltados para esse endeusamento da natureza, que inclui como slogan a crença de que a natureza sempre foi boazinha, quando frequentemente ela foi chata e perversa também. Há um papel político nisso, porque esses meninos generosos, que às vezes se dizem a vanguarda da luta por outro planeta, acabam preocupados com a mãe natureza, pura e simplesmente.
Em segundo lugar, creio que há muita coisa a ser inventada no reino chamado natural. As invenções são produto da necessidade e não o contrário. Então, imaginar que vai faltar água, fazer terrorismo com a camada de ozônio, isso realmente não me causa insônia, sobretudo porque boa parte da água é gasta com coisas desnecessárias e seu uso poderia ser racionalizado. O que me preocupa é, antes de tudo, a contribuição que um certo tipo de “ecohisteria” dá para desmanchar o entendimento do que é o mundo, atribuindo um papel muito grande ao que realmente já não existe, que é a natureza natural. Esta tem de ser discutida, mas nos termos devidos, de modo a ajudar na sua preservação. Mas a preservação não pode ganhar um aspecto religioso, e desse modo prescindir de discussão. O fato é que os agravos à natureza são, sobretudo, originários do modelo de civilização que adotamos. Será este irreversível? É esta a discussão que se impõe, para evitar ao mesmo tempo as ofensas à Terra e aos homens. Não podemos nos esquecer que, uma certa pregação ecologista-naturalista acaba por encobrir o processo de produção da globalização perversa. Por isso, os propagandistas-pregadores são largamente financiados pelos que lucram com essa globalização.
Odete Seabra – Na verdade, os chamados limites naturais não são nem limites, nem naturais…
Milton Santos – Os recursos naturais…se são naturais não são recursos, e, para serem recursos, têm que ser sociais. Mas vá dizer isso! É um problema, porque às vezes a gente desmancha os meninos que vêm nos ver. Você diz uma verdade dessas e eles saem tristes, não é? Certos partidos verdes europeus não são verdes como os nossos, porque eles estão tratando da sociedade, o ambiente é a sociedade. É diferente desse verdismo naturalista brasileiro.
SANTOS, Milton. Território e Sociedade: entrevista com Milton Santos. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2000.
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